Cemitério argentino / Argentinean cementery
Cemitério de Saldungaray, Província de Buenos Aires (Argentina). Cortesia da L.
Saldungaray Cementery, Buenos Aires Province (Argentine). Courtesy of L.
Cemitério de Saldungaray, Província de Buenos Aires (Argentina). Cortesia da L.
Saldungaray Cementery, Buenos Aires Province (Argentine). Courtesy of L.
(...)
a morte apaga a luz da casa já vazia
(o que há de vivo em nós a vida é quem consome)
(...)
a morte, os mortos
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sinto o arrepio: a morte me lambendo
os pés. sinto seu hálito, seu alento:
o cadáver de meu avô me acena
braços abertos, da outra margem. beberemos
cachaça, terei amantes, filhos naturais
pulmões vencidos pela fuligem do tempo.
a ele farei perguntas que a meu pai jamais.
meu avô, de quem herdei alguma coisa incógnita,
me vem no único retrato: o que a memória.
terno de tergal, pentelhos, ossos
exumados. avô, eis aqui teu neto.
de minha avó rosa quero o silêncio e o colo.
de minha avó preta, café na caneca esmaltada.
a elas, pedirei o beijo e a bênção, como nunca
à minha mãe. com elas, o embornal de pão
atrás da porta, o pássaro-preto, a púrpura maciez
de varizes túrgidas.
a cadeira de vime, terno branco, dicionários:
meu vô tote me dará as lições que o tempo
(o tempo o tempo: escorpião, hieróglifo)
suspendeu. dele quero o baralho
o pincel de barba, a cumplicidade com a noite.
dos mortos ainda por vir
só quero que não me lembrem.
sem você me falta minha sombra
o sol que projetava minha sombra
o corpo
entre sol e sombra
É crua a vida. Alça de tripa e metal.
Nela despenco: pedra mórula ferida.
É crua e dura a vida. Como um naco de víbora.
(...)
(Hilda Hilst, de "Alcoólicas")
(...)
Búzios somos, moendo a vida
inteira essa música incessante.
Morte, morte.
Levamos toda a vida morrendo em surdina.
No trabalho, no amor, acordados, em sonho.
A vida é a vigilância da morte,
até que o seu fogo veemente nos consuma
sem a consumir.
(Cecília Meirelles)
(...)
Se alguém quiser fazer por mim
Que faça agora
Me dê as flores em vida
O carinho
A mão amiga
Para aliviar meus ais
Depois que eu me chamar saudade
Não preciso de vaidade
Quero preces e nada mais
(Nélson Cavaquinho, "Quando eu me chamar saudade")
(...)
que cultiva flor antiga:
perfume de renda velha,
de flor em livro dormida.
(...)
(João Cabral, "Alguns Toureiros")
(...)
Só os roçados da morte
compensam aqui cultivar,
(...)
(João Cabral, "Morte e vida severina")